sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Hora de parar; aquele abraço!

No começo de Julho resolvi criar um blog para acompanhar as eleições. A ideia foi criar um espaço para divulgar dados trabalhados por mim e por colegas. O que chamei de análise eleitoral baseada em evidências.
Não imaginava o que aconteceria. Mas avalio que a experiência foi muito bacana: visitas, comentários, dados compartilhados.
Sempre aparecem dados novos, novas avaliações de antigos, boas discussões.
Mas terminada as eleições, percebi que era hora de parar.
Tenho que cuidar também do mundo dos escritos para serem publicados em papel.
Meu projeto de refazer o banco de dados eleitorais e apresentá-lo de maneira mais "amigável" continua de pé. Espero que consiga apresentá-lo em breve.
No mais, agradeço aos colegas e os visitantes que tornaram esta empreitada tão agradável par mim.
Para vocês todos deixo aquele abraço!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Da fragmentação à bipolarização

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

Um cientista político americano me confessou sua surpresa quando soube que 22 partidos elegeram deputados federais nas eleições brasileiras de 2010. A surpresa foi ainda maior quando soube que o PT, partido com mais cadeiras, elegeu apenas 88 deputados (17 %). Existem países com alta dispersão partidária, como Bélgica e Israel. Mas a Câmara dos Deputados brasileira é, atualmente, a mais fragmentada do mundo democrático.

Meu interlocutor não revelou, mas um fato torna ainda mais difícil de entender o sistema partidário no País: por que, com 27 partidos registrados há cinco eleições presidenciais, apenas 2 deles, o PT e o PSDB, disputam efetivamente a Presidência? Ou dito de outra maneira: por que temos o Legislativo mais disperso do planeta, e uma disputa presidencial tão concentrada?

As eleições de 2010 acentuaram uma tendência, que começou em meados da década de 1990, de bipolarização do sistema partidário brasileiro. Em um dos polos estão o PT e seus partidos satélites (PCdoB, PSB e PDT); de outro, o PSDB e os seus satélites (DEM e PPS). Esses dois polos organizam a vida administrativa e programática do País. Lembre-se que a regra de verticalização deixou de vigorar neste ano. Apesar disso, nos principais Estados a bipolarização nacional se reproduziu como nunca.

E os outros partidos? PMDB, PTB, PR e PP fazem parte do que chamarei, na falta de nome melhor, de centro-pragmático. São partidos com baixa intensidade ideológica, que participaram dos governos dos dois polos. Além disso, são partidos que se orientam fortemente para a vida política estadual.

Para muitos analistas, o PMDB saiu como o principal partido desta eleição, pois obteve a maior bancada no Senado, a segunda na Câmara dos Deputados e ainda elegeu, pela primeira vez pelo voto direto (Sarney também pertence ao partido), o vice-presidente.

É inegável a força do PMDB, mas existem alguns sinais de que o partido vem perdendo vitalidade no sistema partidário brasileiro. O PMDB elegeu apenas cinco governadores, um único em um dos grandes Estados da Federação (Rio de Janeiro). Em São Paulo, domicílio eleitoral do vice-presidente, o partido elegeu apenas um deputado federal.

Diversas lideranças históricas do partido ou foram derrotadas ou estão saindo da vida política: José Fogaça (RS), Iris Resende (GO), Geddel Vieira Lima (BA), Hélio Costa (MG) e Orestes Quércia (SP). O partido vive uma clara dificuldade de renovação. Quem são suas lideranças emergentes? Consigo pensar em apenas um nome: o do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

PSB. A composição da bancada dos partidos no Congresso apresentou algumas pequenas alterações em 2010. Gostaria de destacar três delas. A primeira é o crescimento do PSB. O partido é a única legenda que vem crescendo sistematicamente no País, notadamente no Nordeste, onde elegeu cinco dos nove governadores. O PSB deslocou o PMDB como principal força do campo progressista na região.

A segunda alteração digna de nota é o desempenho dos Democratas. O antigo PFL disputou a primeira eleição nacional (já havia disputado as municipais de 2008) com o novo nome, mas não conseguiu deter seu declínio eleitoral, que vem acontecendo desde 2002. O partido tem encolhido paulatinamente, particularmente no Nordeste e nos Estados do Sudeste.

Por fim, vale destacar o PV. O partido não conseguiu traduzir em representação no Legislativo o bom desempenho de sua candidata presidencial. A novidade, aqui, refere-se menos ao desempenho eleitoral e mais ao potencial de crescimento. O PV sempre foi nacionalmente um partido pragmático. A candidata Marina já deu sinais de que pretende dar um caráter mais programático ao PV, que o aproximaria da agenda ambientalista europeia.

Para analisar a configuração do sistema partidário brasileiro é fundamental entender que a fragmentação numérica não se traduz em fragmentação doutrinária. A polarização entre o PT e o PSDB, entre o governo e a oposição no plano federal é o que tem organizado a política brasileira. São dois grandes guarda-chuvas, com espaço para abrigar aqueles que, circunstancialmente, querem ser acolhidos.

Pensando nas transformações recentes do sistema partidário brasileiro lembrei-me do sistema de partidos da Itália desta década: alta fragmentação, mas com um alinhamento em dois grandes polos (esquerda e direita). Eleições presidenciais americanas, com uma bipolarização congressual italiana: uma combinação interessante.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Votação dos candidatos nos estados no segundo turno

Este ano, os canais de tv, sites, jornais e revistas se superaram na qualidade da apresentação dos dados das eleições. A qualidade dos mapas publicados na Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo é realmente excelente. Nada a dever a coberturas do gênero feitas pelo New York Times, Wall Street Jornal e jornais europeus.
Veja, por exemplo, este excelente instrumento de consulta disponível no site da Folha de São Paulo. Nele, você pode, em segundos, conhecer o resultado das eleições em todos os municípios brasileiros.
Os dados publicados pela imprensa sempre consideram apenas os votos válidos. É natural que assim seja, pois os nulos e brancos são sempre excluídos da apuração, por conta das regras eleitorais. Mas para a análise do comportamento eleitoral é importante considerar também os votos brancos e nulos.
Por esta razão, prepararei um gráfico, onde é possível observar, em uma mesma página, a evolução do segundo turno nos 26 estados e no Distrito Federal. Apenas excluí os votos nulos e brancos da tela para facilitar a visualização. Os estados foram ordenados segundo a população.

Percentual de Votos do PT e do PSDB nos estados. Segundo turno das eleições de 2002, 2006 e 2010.



É possível identificar alguns dados interessantes:

1. Quando comparado a Ackmin (2006), Serra obteve mais votos (em pontos percentuais) em 24 estados; manteve-se no mesmo patamar em dois (São Paulo e Mato Grosso do Sul) e diminuiu apenas em um (Rio Grande do Sul).

2. Quando comparada a Lula (2006), Dilma obteve menos votos (em termos percentuais) em 25 estados; e aumentou apenas em dois (Rio Grande do Sul e Pernambuco).

3. As eleições foram bastante competitivas (menos de 10 pontos de diferença) em 12 estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Pará, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso, Distrito federal, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Sergipe e Rondônia). Nos outros 15, um dos dois candidatos abriu uma grande diferença sobre o outro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Números e Impressões

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

Analistas políticos passarão dias debruçados sobre os resultados eleitorais da disputa presidencial deste ano tentando encontrar recorrências e resultados inusitados. Poucas horas depois de encerradas as eleições, compartilho algumas observações que me chamaram a atenção:

1 As eleições do segundo turno de 2010 praticamente repetiram o padrão territorial que começou no primeiro turno de 2006, manteve-se no segundo turno de 2006 e no primeiro turno de 2010. Observe um mapa dos estados com a cor dos vitoriosos: o país ficou territorialmente dividido; a contiguidade das cores no território só não é perfeita por causa das vitórias de Serra no Espírito Santo e em Roraima.

2 A votação final de Dilma foi menor do que a obtida por Lula em 2006 em todas as regiões do país, com exceção da região Sul onde ela manteve o mesmo patamar de Lula em 2006: 44% dos votos. Dilma perdeu 4 pontos porcentuais no Centro-Oeste; 9 pontos no Norte; 6 pontos no Nordeste e 5 pontos no Sudeste. Ver gráfico:



3 Comparativamente à Alckmin em 2006, Serra cresceu em quatro regiões: 3 pontos porcentuais no Centro-Oeste (onde o PSDB passou a vencer); 9 pontos no Norte; 3 pontos no Sudeste. Na região Sul, Serra obteve (51%) e repetiu a votação de Alckmin em 2006 (50%).

4 A diferença entre PT e PSDB na região Sudeste vem se reduzindo desde 2002: 25 pontos em 2002, 12 pontos e 2006 e 4 pontos em 2010.

5 As eleições foram muito disputadas na região Sul (diferença de 6 pontos); Centro-Oeste (diferença de 2 pontos) e Sudeste (diferença de 4 pontos). A vantagem de Dilma deveu-se à diferença obtida no Nordeste (38 pontos) e Norte (15 pontos).

6 Dilma perdeu, no total, em 11 estados. Nunca um presidente eleito perdeu em tantos estados.

7 Se considerarmos os votos brancos e nulos, a votação de Serra (41%) não é muito inferior à obtida por Fernando Henrique em 1994 ( 44%) e 1998 (43%).

8 Apesar de muita especulação sobre os eventuais efeitos do feriado, a abstenção seguiu o padrão de eleições anteriores e cresceu levemente em relação ao primeiro turno; passou de 18% para 21%.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Cuidados ao comparar as regiões nas pesquisas eleitorais

Não vou voltar ao tema da inapropriedade do uso de margem de erro nas pesquisas por quota.
Quero simplesmente chamar a atenção para que os leitores vejam com cuidado os resultados apresentados para cada uma das regiões do país. Em geral, os institutos apresentam os dados para quatro unidades: Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste/Norte.
Vejamos, por exemplo, os resultados da última sondagem realizada pelo Vox Populli. A pesquisa foi a campo entre os dias 15 e 17 de outubro e ouviu 3.000 eleitores, distribuidos da seguinte maneira: 1100 no Sudeste, 500 no Sul, 600 no Norte/Centro-Oeste e 800 no Nordeste. A margem de erro anunciada para a pesquisa é de 1.8%.
O que o leitor deve ficar atento é que a margem de erro para as regiões é diferente da margem de erro para o âmbito nacional. Para ser justos, o Vox Populli apresentou, no relatório da pesquisa, as margens de erro diferenciadas para cada região.
Vamos ver a taxa para a Região Nordeste. Se formos trabalhar apenas com os votos válidos, precisamos excluir os indecisos (5% dos 800 entrevistados= 40); e os votos brancos e nulos (5% dos 800 entrevistados=40).
A amostra do Nordeste é 800; se retirarmos os 80 indecisos e que pretendem votar em branco ou nulo, ficamos com 720.
Para 720 entrevistados, a margem de erro máxima é de 3.7%. Para facilitar, vamos arredondar para 4%.
No Nordeste, Dilma tem 70% dos votos válidos e Serra 30%. Com a margem de erro de 4%, podemos dizer o seguinte: o percentual de Dilma está em algum lugar entre 66% e 74%, e o de Serra em algum lugar entre 26% e 34%.
Na Região Nordeste, pelo menos, o que tenho visto é apenas oscilação dos candidatos dentro destas duas faixas, mas os jornalistas insistem em ver graves alterações de uma pesquisa para outra.
Uma pena que as pesquisas não sejam probabilísticas, mas fica a lembrança que o erro amostral é sempre maior quando recortamos a amostra em segmentos.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Abstenção, Nulos e Brancos

Coluna de hoje no O Estado de São Paulo:

Nos últimos dias, tenho lido muitas declarações de dirigentes das campanhas preocupados com os eventuais efeitos da abstenção e dos nulos e em branco sobre os resultados do segundo turno. As informações que circulam são desencontradas, e a maior parte delas, não corresponde aos fatos. Para esclarecer ao leitor, segue m algumas informações sobre o tema.

1. A abstenção no primeiro turno foi de 18%. Valor semelhante ao das duas últimas eleições presidenciais: 2002 (18%) e 2006 (17%).

2. A abstenção subiu em todas as disputas do segundo turno nas eleições presidenciais, comparativamente ao primeiro turno: passou de 12% para 14% em 1989; de 18% para 21% em 2002 e de 17% para 20 % em 2006.

3. Nas eleições de 2010 a variação da taxa de abstenção entre as regiões, estados e municípios foi muito menor do que em eleições anteriores. Mas alguns padrões permaneceram: a abstenção é sempre menor na região Sul e maior nas regiões Norte e Nordeste, sobretudo nas cidades menores (ver gráfico).




4. Existem muitas evidências de que uma parte da abstenção deve-se a problemas com o cadastro e não são fruto de ação deliberada dos eleitores para não comparecerem. Nas eleições deste ano, houve um recadastramento dos eleitores de 57 cidades que utilizaram o voto biométrico. A média de abstenção nestas cidades foi de 10%, bem menor do que a do pais (18%).

5. Não há como prever o impacto do feriado sobre o crescimento da abstenção no segundo turno. Nas eleições para prefeitura do Rio de Janeiro em 2008 - que aconteceu no meio de um feriado prolongado - a abstenção passou de 18% para 20%. Curiosamente, o maior crescimento (em pontos porcentuais) da abstenção entre os dois turnos, aconteceu em áreas mais pobres da cidade, e não nas áreas de renda média e alta.

6. Temos o hábito de somar os votos em branco e os nulos. Mas eles têm padrões muito diferenciados no pais. Nas eleições presidenciais deste ano a taxa de votos em branco foi de 3% e a de nulos foi o dobro, (6%).

7. A taxa de votos nulos e em branco caiu em todas as disputas de segundo turno nas eleições presidenciais: de 7% para 6% em 1989, de 10% para 6% em 2002; de 8% para 6% em 2006.

8. Coincidentemente, o total de votos nulos e em branco em todas as disputas presidenciais no segundo turno foi 6%. Em números absolutos, o aumento da abstenção acaba sendo compensado pelo declínio dos votos anulados.

9. Os votos em branco se distribuem de maneira homogênea pelo país (ver gráfico). Não há diferenças relevantes por renda/escolaridade do município, nem localização no território. Os estados com taxas mais altas tiveram apenas 4% de votos em branco.

10. Os votos nulos têm padrões muito diferenciados. A taxa tende a ser mais alta nos municípios mais pobres e com mais analfabetos, sobretudo do Nordeste. Nas cidades menores (até 50 mil habitantes) do Nordeste o total de votos anulados foi de 10% (ver gráfico).

11. As cidades com mais taxa de votos nulos do Nordeste são redutos da Dilma. Mas em termos absolutos as perdas da candidata do PT foi muito pequena. Se as menores cidades nordestinas tivessem o mesmo patamar de votos nulos de todo o pais (6%), e se os votos dos eleitores que anularam tivessem a mesma distribuição da de outros eleitores de suas cidades, Dilma teria recebido 112 mil votos a mais, em relação aos seus adversários.

12. Na ponta do lápis, os efeitos da abstenção e dos votos nulos e em branco sobre o resultado final do segundo turno das eleições de 1989, 2002 e 2006 foi ínfimo. Não há razão para acreditar que este ano será muito diferente.


sábado, 23 de outubro de 2010

O significado dos votos nulos

Os estudiosos das eleições têm por hábito somar os votos nulos e em brancos. Afinal, eles não tem serventia para eleições proporcionais (eles são excluídos para o cálculo do quociente eleitoral) e das majoritárias (elas são desconsideradas para saber se haverá ou não o segundo turno).
Pelo menos na disputa para presidente deste ano, os votos nulos e brancos mostraram padrões muito diferenciados.
O gráfico abaixo separa o percentual de brancos e nulos por região e população dos municípios (quatro faixas) para presidente em 2010.
A taxa de votos em branco é em média de 3% e praticamente não varia quando observamos as regiões e o tamanho dos municípios.
Os votos nulos também quase não variam em quatro das cinco regiões do país. O que chama a atenção é a alta taxa de votos nulos nas pequenas cidades do Nordeste (até 100 mil habitantes).
Uma hipótese é que os eleitores de baixa renda e escolaridade teriam mais dificuldade de votar na urna eletrônica. Assim, o voto nulo seria fruto do erro na hora de votar e não da ação deliberada do eleitor (nulo por protesto).
É bom lembrar que os eleitores de baixa escolaridade estão concentrados justamente nas pequenas cidades do Nordeste.



O cientista político Vitor Peixoto me enviou um gráfico que reforça a hipótese de associação entre situação social do município e votos nulos. O gráfico correlaciona o percentual de votos nulos com a taxa de analfabetismo de pessoas com mais de 15 anos (2006). A associação é forte, aliás ela apresenta valores que não são facilmente encontrados nas pesquisas de ciências sociais. Observe abaixo:

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Dilma e Serra em Minas Gerais

Em uma postagem anterior, apresentei a evolução dos votos em Minas Gerais em cinco eleições presidenciais. Os mapas mostravam a crescente votação do candidato do PT (sempre Lula).
O mapa abaixo apresenta os resultados da disputa presidencial (diferença da votação em pontos percentuais entre Dilma e Serra) deste ano. No cálculo da votação, considerei o total de votos dados (inclusive brancos e nulos), não apenas os votos válidos.
A intensidade das cores revela uma maior diferença para um dos lados: quanto mais forte o tom laranja, mais votos para Dilma no município; quanto mais azul, mais votos para Serra.
Estes dados não indicam necessariamente a vitória de um dos dois no município (em algumas cidades, eventualmente Marina pode ter vencido), mas dizem respeito a diferença entre eles.
As esferas são proporcionais à população do município sobre a população total do estado. Não coloquei a legenda com os nomes, para não prejudicara a visualização.



Minha impressão é que o padrão de 2010 repete o de 2006; Dilma abre vantagem em todas as regiões do estado, mas existe um corredor azul que corta o mapa a partir do Sul que é pró-Serra, e já podia ser visto em 2006.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O peso dos colégios eleitorais

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

Quase todos os dias os jornais trazem cálculos feitos por políticos e especialistas sobre a o volume de votos dos candidatos neste segundo turno de disputa presidencial. As contas são difíceis de fazer, pois envolvem uma série de fatores: o total de abstenção, a taxa de votos brancos e nulos, a capacidade de os governadores eleitos (e dos que ainda estão concorrendo no segundo turno) ajudarem o candidato a presidente, o reconhecimento de existência de pisos e tetos de votos nos Estados.

Apresento a seguir um método simples para calcular o peso dos principais colégios eleitorais do País na votação final de Dilma e Serra no segundo turno. O primeiro desafio é agregar os Estados em um número menor de colégios eleitorais. Minha sugestão é que eles sejam agregados em seis unidades: Região Norte/Centro-Oeste, Região Nordeste, Região Sul, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os votos do Espírito Santo foram somados aos do Rio de Janeiro.

O passo seguinte é dimensionar o peso dos votos de cada um destes colégios no total de votos do País. A tarefa não é simples, pois a taxa de comparecimento e de votos nulos e em branco de cada uma destas unidades é variável. A melhor opção é lidar com os votos exclusivamente recebidos pelos candidatos.

A partir da análise dos resultados do segundo turno das eleições de 2002 e 2006, e do primeiro turno das eleições deste ano, cheguei aos valores abaixo. A vantagem é que pouco importa o total de abstenção ou votos em branco de cada colégio eleitoral

O próximo passo é simples: multiplicar a porcentagem de votos válidos de cada um dos candidatos de um dado colégio eleitoral pelos valores apresentados na tabela 1. Por exemplo, para um candidato que aparece com 60% dos votos válidos na pesquisa no Rio de Janeiro a operação é a seguinte: 0,60 x 10,5 = 6,3. Este número mostra que o Rio de Janeiro contribui com 6,1 pontos porcentuais para o computo final do candidato.

Para efeitos de apresentação, utilizo os valores da última pesquisa Ibope (13 de outubro) da disputa para o segundo turno nas Regiões Nordeste, Sul e Norte/Centro-Oeste. Infelizmente, ainda não temos resultados divulgados para os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro; para estes Estados os números são arbitrários.

O mesmo procedimento deve ser repetido para todas as votações de Dilma e Serra em cada colégio eleitoral. Após o cálculo do total de pontos porcentuais obtidos pelos candidatos chegamos à tabela 2. Ela deve ser lida da seguinte maneira: Dilma obtém no Nordeste 15,6 pontos porcentuais do total nacional de 52,2; já Serra obtém 10 pontos do total nacional de 47,8.

O dado mais impressionante deste exercício é a diferença de pontos entre Dilma e Serra no Nordeste. Para compensar os 5,6 pontos de vantagem da candidata petista, o candidato tucano provavelmente teria que vencer com margem expressiva em São Paulo e, em mais um grande colégio eleitoral do Sudeste: Rio de Janeiro ou Minas Gerais.

Minha sugestão é que o leitor use o método acima para simular possíveis cenários eleitorais, utilizando os dados de cada nova pesquisa. Para os que preferem os números absolutos, cada ponto porcentual do exemplo acima corresponde algo em torno de 1 milhão de votos.

Bom deixar claro: o método serve apenas para fazer simulações e captar tendências. Longe de mim tentar fazer qualquer previsão sobre os resultados de uma eleição.

Veja os passos para o cálculo.

sábado, 16 de outubro de 2010

Renda dos municípios e disputa presidencial

As eleições de 2006 e 2010 têm muitos aspectos semelhantes. Um deles é a relação entre a renda dos municípios e a votação dos candidatos. Dilma e Lula obtiveram votações proporcionalmente maiores nos municípios mais pobres e mais reduzidas nas faixas de renda mais alta. A votação do PSDB é invertida: proporcionalmente menor nos municípios mais pobres e maior nos municípios mais ricos.
Dividi os municípios brasileiros em quatro faixas de renda per capita (baixa, média baixa, média alta e alta). As faixas foram obtidas segundo os quartis de renda per capita de 2000. Infelizmente, não temos dados mais recentes sobre renda, mas não creio que a atualização mude o padrão geral.
O gráfico abaixo compara a votação do primeiro turno dos seguintes candidatos: Lula (2006), Dilma (2010), Alckmin (2006), Serra (2006) e Marina (2010).
A semelhança entre a votação de Lula e Dilma é clara. O Mesmo acontece com o padrão Alckmin/Serra. Uma diferença importante é que Alckmin foi vitorioso nos municípios de renda mais alta, enquanto Serra não obteve o mesmo feito.
O padrão da votação de Marina é semelhante ao do PSDB: sobe à medida que sobe a renda do município.

Percentual de voto e renda per capita do município: Lula (2002), Dilma (2010), Alckmin (2006), Serra (2010) e Marina (2010)



Vale a pena chamar a atenção que a relação entre renda e voto não é linear, mas uma tendência geral da renda de município.
Para quem quiser observar a nuvem de distribuição dos municípios brasileiros criei os dois gráficos abaixo.
Nos dois casos, a melhor linha de ajuste não foi linear, mas logarítimica.

Percentual de votos dos candidatos (Lula e Alckmin) e renda per capita dos municípios (2006)




Percentual de votos dos candidatos (Dilma e Serra) e renda per capita dos municípios (2010)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Cinco eleições presidenciais nos estados

O conjunto de gráficos abaixo apresenta o percentual de votos obtidos pelos dois principais candidatos (PT e PSDB) nas cinco eleições presidenciais. Os votos obtidos por todos os demais candidatos foram agregados como "outros".

O primeiro gráfico mostra os dados dos estados da Região Nordeste. Observe a crescente votação de Lula na região, particularmente em 2002. Dilma é extremamente bem votada, mas com exceção de Alagoas, têm menos votos do que Lula obteve em 2006.

Percentual de voto dos Presidentes nos estados da Região Nordeste. Eleições de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.



O segundo gráfico apresenta os dados das Regiões Norte e Centro-Oeste. Em uma postagem anterior revelei a minha surpresa com o fato de Serra ter vencido no Acre, mas quando observei os dados da série de eleições no estado fiquei ainda mais surpreso: Lula só venceu no Acre em 2002 (justamente contra Serra).
No mais, os estados e o Distrito Federal apresentam padrões muito variados. Vale observar o Amazonas, onde a votação de Lula e Dilma se aproxima do alto nível de votos obtidos pelos candidatos petistas nas três últimas eleições no Nordeste.

Percentual de voto dos Presidentes nos estados da Região Norte e Centro-Oeste. Eleições de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.



O último gráfico traz a votação nas Regiões Sul e Sudeste. O PSDB venceu quatro, das cinco disputas, em três estados: Santa Catarina, São Paulo e Paraná. O PT venceu quatro vezes apenas no Rio Grande do Sul, mas outros estados têm apresentado vitória sistemática do partido nas três últimas eleições: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo.
Em linhas gerais, três redutos do PSDB: São Paulo, Paraná e Santa Catarina; quatro redutos do PT: Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Percentual de voto dos Presidentes nos estados da Região Sudeste e Sul. Eleições de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O que os clichês não explicam

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo:

Todas as eleições criam interpretações que viram clichês para a posteridade. A eleição de 1989 foi a da renovação, da crise da elite política tradicional; a de 1994 foi a eleição do Plano Real; a de 1998 foi a da aposta na continuidade e dos benefícios da estabilidade da moeda; a de 2002 foi a da vitória da renovação e da aposta na agenda social de Lula e do PT; em 2006, houve o reconhecimento dos grandes ganhos sociais do governo Lula.

E as eleições de 2010? Até o fim de setembro, a interpretação-clichê já havia sido produzida e virou um mantra entre os analistas: o governo Lula, com 80% de aprovação, transferiu sua popularidade para a candidata situacionista ao longo da campanha; as eleições de 2010 seriam a da reeleição de Lula por outras vias.

Mas bastou as urnas serem abertas e a vitória de Dilma no primeiro turno não ser confirmada, para uma busca frenética para novas explicações sobre os determinantes do voto no Brasil. A economia deu lugar à sociologia. O eleitor que votava com o bolso passou a ser, repentinamente, influenciado por temas como aborto, liberdades públicas, homossexualismo, crença (ou descrença) em Deus e denúncias sobre corrupção.

Nunca saberemos, ao certo, qual foi o peso da mobilização anti-Dilma nas duas semanas que antecederam as eleições. Infelizmente, não há como mensurar os efeitos de cada fator sobre a queda de Dilma. Será que admoestações de pastores e bispos realmente influenciam os eleitores? As denúncias do caso Erenice tiraram votos de Dilma na classe média? Ver vídeos do YouTube convence eleitores de alguma coisa?

Um caminho mais proveitoso é avaliar cuidadosamente o desempenho dos candidatos pelo território. Para isso, temos grande volumes de dados: por seção eleitoral, municípios e Estados. Uma mera observação da votação dos candidatos por Estado já revela dados interessantes.

Nas eleições presidenciais, os candidatos têm apresentado diferentes padrões de voto nos Estados. Mas, no primeiro turno de 2006, esse padrão assumiu contornos espaciais diferentes das eleições anteriores. Lula venceu na Região Norte e Nordeste, mas perdeu no Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Lula venceu em 16 Estados; Alckmin, em 10 Estados e no Distrito Federal.

Segundo pesquisas de opinião publicadas na primeira semana de setembro, Dilma liderava em todos os Estados. Mas depois que os votos foram apurados, os resultados deste ano acabaram por mostrar muita similaridades com os de 2006. Serra venceu em oito Estados, Dilma foi vitoriosa em 18 Estados e Marina venceu no Distrito Federal. Dilma venceu nos mesmos16 Estados em que Lula havia vencido em 2006 e, mais, no Rio Grande do Sul e Goiás. Ou seja, apenas três unidades da Federação não repetiram o mesmo partido vitorioso em 2006 e 2010.

As pesquisas de opinião revelam que os votos de Dilma e Serra têm diferentes bases sociais. Quando analisadas por escolaridade e renda o padrão de Dilma é uma pirâmide; seus votos são proporcionalmente mais altos nos estratos de mais baixa renda e escolaridade, e caem na medida em que sobem a renda e a escolaridade. O padrão de Serra é diametralmente inverso: maior nos estratos superiores e menor nos estratos inferiores.

Existe uma justaposição entre renda e escolaridade das pessoas e o território. Sabemos, por exemplo, que as faixas de mais baixa escolaridade e renda estão altamente concentradas na Região Nordeste. Dois mapas excelentes publicados pelo Estado, com a votação nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, mostraram que Dilma venceu nas regiões mais pobres das duas cidades, enquanto Serra foi vitorioso nas áreas de renda média e alta.

Ainda não temos dados sobre as divisões no interior de cada Estado e entre os bairros das cidades, mas a simples divisão de renda e escolaridade está longe de explicar o que aconteceu em 2006 e 2010.

Termino com mais uma pergunta: por que morar em certos Estados e regiões do País está fazendo tanta diferença na hora de votar?


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os institutos de pesquisa e suas razões

Confesso que fiquei frustrado com as entrevistas dos dirigentes dos institutos de pesquisa que li na imprensa.
Nenhum reconhece que podem ter acontecido problemas de campo, na amostra, ou devido ao uso de quotas.
Sempre a explicação para os eventuais imprecisões se resume a três pontos:
- A existência uma onda de opinião publica incapaz de ser dimensionada. Esses institutos não fazem pesquisas diárias? Não tem estatísticos trabalhando? Não são capazes de simular, de modelar matematicamente a velocidade de subida dos candidatos?
- A abstenção maior em áreas pobres. Pode ter acontecido. Mas não vi evidências seguras para isso. E me ajudem: a boca-de-urna não é feita com quem foi votar? Neste caso, a abstenção já foi controlada.
- Os institutos acertam mais do que erram. Pode ser verdade. Mas precisamos de um inventário das pesquisas estaduais dos institutos para ver se isso aconteceu este ano.
O erro é uma premissa da pesquisa amostral. E o problema não é que se erre. O que me impressiona é que os institutos nunca estejam dispostos a discutir suas opções técnicas.
Pensando bem: não seriam os estatísticos dos institutos que deveriam estar dando as entrevistas? Onde eles estão?

Passada as eleições municipais de 2008 fiz um balanço das pesquisas de opinião em uma coluna que assinava na Veja.com.
Só hoje lembrei deles. Pode interessar a quem acompanha a discussão sobre o papel das pesquisas no Brasil.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Excelentes mapas com a distribuição de votos

Para quem gosta de mapas eleitorais recomendo visitar o material produzido pela esquipe de O Estado de São Paulo.
São os melhores mapas on-line com dados que já vi no Brasil.
Só não são perfeitos, por não permitirem digitar o nome da cidade para encontrá-la facilmente no mapa. Não é simples chegar às pequenas cidades
Por enquanto, eles apresentaram mapas do Brasil, do cidade de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro.

Impressões visuais:
- O mapa do Brasil de 2010 guarda semelhanças com o de 2006. Embora em tons menos claros do que o da disputa Lula vs. Alckmin.
- O mapa do Rio divide a cidade de maneira semelhante a das eleições municipais de 2008. Um bloco popular avermelhado na parte superior do mapa, área em que Eduardo Paes foi mais bem votado. E a área em azul e verde, onde Gabeira venceu naquela disputa.
- Não entendo da geografia de São Paulo, mas pelo que já vi em trabalhos de colegas, parece que houve uma reprodução da antiga clivagem social-territorial da cidade: nas àreas de renda mais baixa venceu a Dilma; nas de renda mais alta, venceu o Serra.
Aliás, nas duas maiores cidades existe indício que houve um forte divisão espacial/social do voto: áreas de renda média/alta votaram predominantemente para Serra, enquanto baixa renda, votaram majoritariamente para Dilma.

Difícil de entender

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

Depois de ouvir duas pessoas conversando sobre as estratégias dos partidos para o segundo turno nas eleições presidenciais, me dei conta de algo óbvio: o sistema de escolha para os cargos do Executivo (presidente, governador e prefeito) é muito mais inteligível do que o utilizado para eleger deputados.

Na disputa presidencial deste ano concorreram apenas nove candidatos, sendo que apenas três deles receberam destaque na cobertura feita pelos meios de comunicação. Todos obtiveram um tempo generoso para apresentar suas ideias no rádio e na televisão. Em poucos dias de campanha, os eleitores já tinham se deparado com um desses nomes em algum canal de informação.

Mesmo a regra de dois turnos já é amplamente compreendida pelo eleitorado. Em contraste, as regras da representação proporcional - sistema utilizado nas eleições de deputados - confundem até os jornalistas, como pude observar em diversas matérias nestes últimos dias.

Além das dificuldades de se entender como as cadeiras são distribuídas entre os candidatos, existe o desafio decorrente do grande número de partidos e candidatos que disputam as eleições no Brasil.

O horário eleitoral ajuda pouco nas disputas proporcionais. Por uma razão simples. Não há como garantir uma propaganda decente com o número de concorrentes a deputado. Uma divisão do tempo de rádio e TV pelos candidatos dará poucos segundos para cada um. Para oferecer um tempo per capita razoável, o horário eleitoral teria de durar meses.

Os candidatos e partidos têm feito o que podem para escapar a essa limitação. A estratégia dos partidos é concentrar o tempo em alguns nomes com mais capacidade de atrair votos (puxadores de legenda). Para tentar sobressair da maré de rostos, muitos candidatos têm apelado para a bizarrice. Depois dos tipos de 2010, não creio que seja possível inventar algo novo. Vimos de tudo.

A campanha eleitoral dura oficialmente 90 dias. Nesse período, o maior desafio dos candidatos é fazer os eleitores saberem de suas pretensões. Atualmente, as campanhas não podem mais usar outdoor, nem colocar cartazes em postes e viadutos, nem doar brindes (inclusive as tradicionais camisetas) para os eleitores. O que foi ótimo para controlar os gastos abusivos de campanha.

Além das placas nas casas, a legislação permite propaganda quando acompanhada de pessoas. O que deu ensejo uma nova e curiosa forma de utilização de propaganda, em que pessoas têm a tarefa de "vigiar", durante todo o dia, um cavalete com a foto, o nome e o número de um candidato; ou alternativamente, tremular uma bandeira com as mesmas informações.

Uma campanha ancorada na combinação de horário eleitoral, que tem atraído a atenção mais pelos tipos bizarros, do que pelos bons candidatos, com atividades de rua concentrada nos "homens-placa", está longe de ajudar a discutir os desafios legislativos do Pais.

Uma pesquisa feita um dia antes das eleições no Estado do Rio de Janeiro revelou que apenas 50% do eleitorado ainda não sabia em quem votar. Por isso, eu imaginava um crescimento significativo dos votos em branco e anulados.

Houve, de fato, um crescimento dos votos em branco e nulos na disputa para deputado federal, mas muito pequeno; eles passaram de 11% (2006) para 13%. Com exceção do Espírito Santo, o porcentual de nulos e brancos cresceu em todos os Estados. O que é difícil de saber é por que ele aconteceu de maneira tão variada. Em São Paulo, por exemplo, ele passou de 14,4 % para 15,8 %. Já no Ceará houve um aumento de 6,9% para 15%. O crescimento mais surpreendente foi em Sergipe, onde eles explodiram: passaram de 9,3% para 23%.

Percentual de votos inválidos (Nulos + Brancos) nas eleições para Câmara dos Deputados, por unidade da Federação. 2006 e 2010



Pelo menos na disputa para a Câmara dos Deputados os eleitores parecem não ter utilizado o voto em branco e nulo como instrumento maciço para expressar sua insatisfação com a política.

Sobre os nomes escolhidos pelos eleitores e as razões que moveram essas escolhas sabemos muito pouco. Confesso que sempre tive curiosidade para saber quem se beneficiou das escolhas feitas pelos 50% que escolheram o que fazer com o voto nos últimos dois dias de campanha. Minha impressão é que estes serão os primeiros a esquecer em quem votaram.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Os resultados das eleições presidenciais por estado (com brancos e nulos)

Os jornais publicaram, na edição de hoje, o resultado final das eleições. Todos eles apresentaram os votos válidos separadamente dos nulos e em branco. Afinal, são estes os dados que interessam para sabermos se haverá (ou não) o segundo turno.
Esta é a forma tradicional de apresentar estatísticas eleitorais. Mas vale a pena observar conjuntamente os votos dados aos candidatos e os deixados em branco e anulados. Assim, podemos analisar como todos os eleitores que compareceram se manifestaram.
O conjunto de gráficos abaixo apresenta os resultados das eleições presidenciais por estado. Para facilitar a consulta, os gráficos são apresentados em ordem alfabética. Também para facilitar a visualização, os votos dos candidatos que obtiveram votações reduzidas foram agregados.


Existem muitos resultados inesperados. Para mim, o maior deles foi a vitória de Serra no Acre, estado govenado elo PT e terra natal da Marina. Alguém tem pistas do que aconteceu?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

As eleições presidenciais saíram da margem

Os resultados das eleições presidenciais de ontem foram surpreendentes. Sobretudo, para aqueles que, de maneira equivocada, interpretam os resultados das pesquisas como se elas fossem um instrumento de precisão suíça.
Todos os institutos erraram o resultado final. Erraram no que eles consideram como erro máximo das pesquisas (margem de erro). O Ibope errou mesmo a pesquisa de boca de urna, que entrevista os eleitores no dia das eleições. A pesquisa ouviu 4.300 eleitores (a margem de erro anunciada é de no máximo de 2 pontos percentuais); todos os candidatos chegaram fora dos limites definidos.
Os resultados que circularam das pesquisas presidenciais nos estados mostram resultados muito mais discrepantes ainda. Precisam ser analisados com cuidado.
O gráfico compara os resultados das urnas em votos válidos, com as últimas pesquisas nacionais do Datafolha, Vox Populli e Ibope anunciadas no sábado e a pesquisa de boca de urna, feita pelo Ibope. A margem de erro de todas as pesquisas foi de no máximo 2 de pontos percentuais.



Este erro coletivo dos resultados foi o maior já cometido pelos institutos no Brasil. A partir de hoje, vamos ouvir uma série de possíveis responsáveis: as chuvas, a taxa de abstenção, as ondas de opinião nunca captadas, os erros na hora de votar.
Em 1992, todos os institutos ingleses erraram o resultado das eleições. Apontaram vitória dos trabalhistas, mas John Major, do Partido Conservador, venceu por larga margem. Após as eleições, os institutos montaram uma força-tarefa de sociólogos, cientistas políticos e estatísticos para analisar cuidadosamente o que tinha acontecido.
O relatório dos pesquisadores apontou uma série de fatores: desde o “voto envergonhado”, que não se declarava sinceramente ao entrevistador, aos efeitos da abstenção. Uma das causas apontadas foi o uso da pesquisa por quota (usada por todos os institutos no Brasil). Desde então, os institutos ingleses abandonaram a pesquisa por quota.
Minha sugestão é que os institutos brasileiros façam o mesmo. Convoquem pesquisadores, estudiosos da opinião pública e estatísticos para um estudo detalhado sobre as razões dos erros desta eleição. Imprecisões de outras eleições sempre são justificados com a seguinte frase: “tivemos mais acertos do que erros”. E a vida segue.
A propósito, ouvi a seguinte pergunta de um amigo:”se os institutos erram as pesquisas na véspera e no dia das eleições, quem pode assegurar que eles acertem durante ?”. Fiz o que podia: silenciei.

As previsões das bancadas na Câmara dos Deputados

Em um postagem anterior critiquei a futorologia sem fundamento das previsões sobre as bancadas na Câmara dos Deputados.
Algumas delas previram que o PT elegeria 130 deputados. Outras, mais modestas, falaram em pelo menos 100 cadeiras para o PT e mesmo número para o PMDB. Também erraram.
Sugeri um método para impressionar os amigos: dizer que todos os partidos chegariam com mais ou menos 15 deputados em relação à bancada atual. Se você o utilizou, volte aos seus amigos e diga que você acertou a bancada de todos os partidos!

domingo, 3 de outubro de 2010

Uma pena

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

Cerca de 115 milhões de eleitores - de um universo total de mais de 135 milhões - devem sair de suas casas para votar nas eleições de hoje. O Brasil tem hoje o quarto maior eleitorado dos países democráticos, perdendo apenas para a Índia, a Indonésia e os Estados Unidos. Para se ter uma ideia, nas eleições americanas de 2008, na qual Barack Obama foi vitorioso, 131 milhões de americanos compareceram para votar.

Não tenho notícias de um sistema de votação tão bem organizado e eficiente como o utilizado no Brasil. As eleições acontecem em um único dia, todos os eleitores votam em um mesmo sistema de votação e, horas depois de encerrado o pleito, já temos os resultados finais. Nas eleições gerais da Índia, em 2009, o processo eleitoral durou um mês. Nos Estados Unidos, cada condado adota um sistema próprio de votação.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou no Brasil o mais moderno sistema de votação do mundo, com a combinação do cadastro nacional informatizado de eleitores, a urna eletrônica e o processo integrado de apuração.

A Justiça Eleitoral tem feito cada vez melhor a função que para ela foi desenhada pelo Código Eleitoral de 1932: cadastrar eleitores, organizar e fiscalizar os pleitos e diplomar os eleitos.

Mas, infelizmente, desde 2002, o TSE passou a ter um papel mais ativo, com decisões controversas que afetaram a competição eleitoral no Brasil. Nesta tarefa tem contado com a participação do STF. Em 2002, uma interpretação particular da legislação em vigor obrigou os partidos a refazerem as suas estratégias, pois estes foram obrigados a reproduzir nos Estados as coligações nacionais (verticalização). Nas eleições de 2006, os partidos fizeram suas campanha sabendo que a cláusula de desempenho entraria em vigor naquele pleito. Após as disputas, o TSE considerou a medida (de 1995) inconstitucional e suspendeu sua aplicação.

Mas nada se compara à confusão deste ano, com o julgamento sobre a entrada em vigor da Lei da Ficha Limpa. Nas eleições de hoje, 1.248 candidatos concorrerão (ou seja, seus nomes aparecerão na urna eletrônica) sem saber como os votos recebidos por eles serão contabilizados.

Milhões de votos estarão à espera de uma decisão posterior ao pleito. Qualquer das decisões produzirá forte efeito sobre a representação política. As bancadas dos partidos terão alterações significativas, caso os votos recebidos pelos candidatos que estão na berlinda sejam anulados ou contabilizados para distribuição de cadeiras.

Já imaginaram se da decisão da Justiça depender a realização ou não de um segundo turno em um Estado? Os eventos deram à Justiça neste ano um papel equivalente ao da Comissão de Verificação Eleitoral da República Velha. A apuração continuará sendo uma das mais rápidas do mundo. Mas, desta vez, vamos dormir sem saber o que fazer com os resultados das eleições. Uma pena.

De uma conversa com um mesário:

Algumas pessoas chegaram na seção eleitoral e não votaram, pois levaram somente o título eleitoral. Isso em uma seção que funciona em uma escola de classe média.
Curiosa confusão: o título eleitoral foi criado para justamente definir o "acesso" dos eleitores às urnas.

sábado, 2 de outubro de 2010

Eleições Presidenciais nas 30 maiores cidades

O gráfico abaixo apresenta o percentual de votos obtidos pelos candidatos do PT (Lula) e do PSDB (Fernando Henrique, Serra e Alckmin) nas quatro últimas eleições nas 30 maiores cidades do país.
o critério de seleção das cidades foi o total de comparecimento nas eleições de 2006.
Pelo mapa de acesso dos leitores do Blog, acredito que cerca de 90% dos visitantes moram em uma destas.

Votos do PT e PSDB nas Eleições para Presidência nas 30 maiores cidades do Brasil. Primeiro Turno (1994, 1998, 2002 e 2006)


Observe que Lula venceu em todas as disputas em quatro cidades: Salvador (a capital mais "lulista" do Brasil), São Luis, Teresina e São Bernardo.
Em 2002, José Serra perdeu nas 30 cidades; foi a única disputa em que Lula venceu na cidade de São Paulo.

Na TV

O autor do Blog, com o jurista Luís Roberto Barroso no Programa Espaço Aberto da Míriam Leitão.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pesquisa por quota e margem de erro

Durante algumas postagens afirmei que não uso a margem de erro nas minhas análises porque não existe base científica para fazê-lo. Algumas pessoas pediram que escrevesse mais sobre o assunto.
Os estatísticos do século passado fizeram uma descoberta genial. Desde que respeitadas certas regras, seria possível retirar uma amostra de uma dada população e dizer, com certo grau de certeza, o quão próxima aquela amostra estaria da população. A amostra não nos permite acertar um resultado "na mosca", mas dizer que ele provavelmente estará em um faixa de certeza.
Graças a pesquisa por amostra, posso dar um mergulho na Praia de Ipanema, mas não na Praia do Flamengo (considerada poluída nas amostras). A premissa amostral sugere que eu não coma tomate (60% contaminados por agrotóxico além do razoável), mas me esbalde com brócolis (com um grau razoável de contaminação).
Uma das formas de avaliar o grau de incerteza de uma pesquisa amostral é a margem de erro. Ela nos permite dizer, por exemplo, que em uma pesquisa com 2500 eleitores, Dilma estaria entre 46% e 50% dos votos. Não que está exatamente com 48%.
A fundamentação da pesquisa por amostra é a aleatoriedade. Para utilizarmos o instrumento precisamos garantir que, em todas as fases da pesquisa, as chances de um individuo de uma dada população ser sorteado sejam idênticas, e que esta seleção não seja "contaminada" por uma escolha particular do pesquisador. Ou seja, as 2000 pessoas entrevistadas serão selecionadas, sem que o instituto saiba se são homens, mulheres, de escolaridade alta ou baixa.
Todas as pesquisas dos grandes institutos dos Estados Unidos são feitas assim. A pesquisa por quota não é utilizada no meio acadêmico e por grandes empresas de pesquisa nos Estados Unidos desde os anos 1950.
O problema é que as pesquisas no Brasil não seguem a premissa da aleatoriedade total, pois são baseadas em quotas.
Na pesquisa por quota, a amostra procura reproduzir algumas características sociais da população. Quase sempre escolaridade, sexo e idade. Se existem 51% de mulheres na população, a pesquisa por quota entrevistará 51% de mulheres. Se a população brasileira é composta por 13% de pessoas com com terceiro grau a pesquisa entrevistará o mesmo patamar de pessoas com terceiro grau.
O Datafolha preenche a quota em pontos de fluxo nas ruas. O IBOPE e o Vox sorteia até o setor censitário e, neste nível, preenche as quotas, quase sempre em visitas domiciliares. Sei que o IBOPE usa os pontos de fluxo na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.
Meu ponto aqui não é que as pesquisas por quota sejam ruins ou boas; se acertam ou se erram; se são feitas no domicílio ou em pontos de fluxo. A questão é que até hoje não ouvi uma justificativa científica para elas usarem a margem de erro.
Para quem quer mais detalhes sobre o tema, recomendo enfaticamente o excelente texto escrito pelos estatísticos José Ferreira de Carvalho e Cristiano Ferraz: A falsidade da margem de erro nas pesquisas eleitorais baseadas em quotas
De qualquer modo, continuo procurando: quem conhecer um bom texto que apresente a justificativa científica para o uso de margem de erro em pesquisas por quota, favor enviar.
O tema realmente merece uma discussão mais cuidadosa. Vou tentar escrever um texto mais detalhado sobre o assunto depois das eleições.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Novo estímulo à abstenção

Coluna publicada hoje no O Estado de São Paulo

O atual prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB) obteve, no segundo turno das eleições de 2008, apenas 55 mil votos a mais do que o seu adversário, Fernando Gabeira (PV). Naquele ano, o governador Sérgio Cabral antecipou um feriado (Dia do Funcionário Estadual) para a sexta-feira antes do domingo das eleições.
Muitos cariocas foram passar o feriado ensolarado em cidades vizinhas e não votaram. Criou-se uma versão de que a abstenção teria sido suficiente para explicar a diminuta diferença entre os candidatos. Uma pesquisa mostrou que essa versão não correspondeu aos fatos. Na verdade, quem perdeu mais votos com a ausência dos eleitores foi o candidato Paes.
Talvez esse seja o caso mais conhecido no qual a abstenção foi mobilizada para explicar o resultado das eleições. Os políticos, sobretudo aqueles com forte apoio nas áreas populares, temem que a alta abstenção os prejudique. Em 2006, Lula fez campanha pelo comparecimento. Este ano, Dilma faz o mesmo.
Em que pese o voto ser obrigatório, sabemos que a abstenção não é a mesma nas cidades e nos Estados. Nas eleições gerais de 2006, por exemplo, abstenção variou entre 20% (Maranhão) e 13% (Rio Grande do Sul.)
A principal causa dessa variação se deve ao fato de muitos eleitores estarem fora de seu domicílio eleitoral. O mais frequente é que eles mudem de cidade, mas não transfiram o título para o novo domicílio. Nas eleições de 2006, 880 mil moradores de outros Estados justificaram o voto em São Paulo; o maior contingente é de originários da Bahia: 206 mil eleitores. Todos esses apareceram como faltosos nas estatísticas de suas cidades de origem.
Outro fator que afeta marginalmente a taxa de comparecimento é que o voto não é obrigatório para eleitores analfabetos e com mais de 70 anos. Existe ainda um contingente de eleitores que deixam de comparecer por protesto. Não existem pesquisas que dimensionem o peso de cada um desses fatores.
O gráfico apresenta a taxa de abstenção do primeiro turno das eleições presidenciais. Dois dados chamam a atenção. O primeiro é que a as Regiões Norte e Nordeste tiveram maiores taxas de abstenção em todas as disputas. O segundo é que a diferença entre as regiões tem diminuído.



Duas alterações na legislação podem afetar a taxa de abstenção neste ano. A primeira é a possibilidade de que os eleitores que estão fora do domicílio eleitoral possam votar para presidente (o voto em trânsito). A medida faz todo sentido, pois vivíamos uma situação curiosa: um eleitor brasileiro morando fora do País podia votar para presidente, mas outro que mudou para uma cidade vizinha (e não transferiu o título) era proibido de fazê-lo.
O problema é que o voto em trânsito funciona apenas nas capitais e os eleitores precisavam se cadastrar previamente. Por isso, seus efeitos devem ser marginais. Afinal, a maior parte da abstenção se deve aos eleitores que moram fora de sua cidade de origem, e não aos que estão fora apenas no dia das eleições.
A segunda medida que deve afetar o comparecimento é a exigência de que os eleitores apresentem dois documentos para votar: o titulo e mais um documento de identidade com foto.
O atual título eleitoral começou a ser utilizado em 1986. Desde 1932, todos os títulos eleitorais tiveram fotografias. O atual não tem. Creio que isso se deve ao fato de ele ter sido criado simultaneamente à criação do cadastro nacional informatizado de eleitores. Naquele momento, ainda não existiam fotos digitais.
Desde então, as exigências para votar foram relaxadas. Ou se levava o título ou um documento de identidade. Afinal, além de a foto identificar o eleitor, a semelhança da assinatura era outro instrumento de controle. Lembro ter votado, em diversas eleições, apresentando apenas a carteira de identidade.
Por alguma razão, os legisladores avaliaram que essa decisão permitia que eleitores votassem em lugar de outros. Não me lembro de denúncias graves de fraudes desse tipo. Curiosamente, se deram conta desse risco após duas décadas de vigência do título sem foto. Justamente quando a fiscalização e o controle eleitoral são mais rigorosos.
O único problema é mesmo a ausência de foto no título. Se sei onde é a minha seção eleitoral, sou eu quem está na foto e assino como no meu documento, para que a exigência de portar o título? A medida mais razoável seria alternativamente apresentar o titulo e mais um documento com foto, ou apenas um documento com foto.
Apesar das campanhas feitas pelo TSE e pelos candidatos que temem ser prejudicados com a abstenção, tenho a impressão de que muitos eleitores deixarão de votar, pois não terão os dois documentos para levar.
Por um preciosismo, corremos o risco de trocarmos a redução de uma fraude que acontecia em pequena escala, por um aumento significativo da abstenção; sobretudo, em áreas populares. Uma péssima troca.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O declínio dos votos nulos e em branco nas eleições presidenciais

O alto contingente votos nulos e deixados em branco sempre foi uma característica das eleições brasileiras. Nas eleições legislativas dos anos 1980 a taxa de votos inválidos chegou perto de 50% em alguns estados.
Um fator que contribuía para a alta taxa de votos brancos e nulos era a dificuldades da cédula de papel. Para votar para o Executivo, a dificuldade não era tão grande: bastava fazer um (X) ao lado do nome do candidato. Mas o voto para o Legislativo exigia que o eleitor escrevesse o nome do seu candidato em um espaço na cédula. Uma desafio e tanto para os eleitores com reduzida escolaridade.
Por incrível que pareça, a urna eletrônica facilitou o voto dos eleitores com baixa escolaridade. É muito mais fácil digitar números do que escrever nomes. O teclado da urna eletrônica tem a mesma disposição do teclado do telefone. E não devemos esquecer: hoje os eleitores mais pobres tem que digitar sua senha no banco para receber os benefícios do Bolsa Família.
O gráfico abaixo apresenta o percentual de votos inválidos (nulos +em branco) no primeiro turno das eleições presidenciais por Região.




É interessante observar a reduzida taxa de brancos e nulos em 1989, a única disputa presidencial isolada. Naquele ano, o eleitor compareceu às urnas apenas para fazer um (x) ao lado do nome do candidato a presidência.
Os dados revelam duas boas notícias. A primeira é que a taxa vem caindo, desde 1994, em todas as Regiões do país. A segunda é que, embora o Nordeste tenha sempre a taxa mais acentuada, a diferença para as outras regiões é cada vez menos acentuada.
Lembre que o voto para presidente é o último na urna eletrônica. Escolha que confunde uma parte dos eleitores, que imagina que o primeiro voto é para presidente. Um eleitor afoito que teclar, por exemplo 13 e confirmar, pensando estar votando na Dilma, ajudará o voto de legenda do PT para estadual.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Visualização das disputas presidencias nos estados

Com o dia das eleições se aproximando, é bom relembrar os resultados das disputas presidenciais anteriores nos estados.
Apresento em uma única página, 27 gráficos, com o percentual obtido pelos dois principais concorrentes no primeiro turno das eleições de 1994, 1998, 2002 e 2006.
Nas quatro disputas, houve polarização entre o Lula e um candidato do PSDB - Fernando Henrique duas vezes, Alckmin e Serra.

Percentual de votos do PT (vermelho) e do PSDB (azul) nas eleições presidenciais


A comparação entre os gráficos permite uma visualização rápida das tendências. Alguns dados sempre surpreendem. Por exemplo, não lembrava que o candidato Serra obteve apenas 8% dos votos no estado do Rio de Janeiro, em 2002.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Evolução dos votos válidos e incertezas de decisão no primeiro turno

Vale a pena observar a evolução dos resultados das pesquisas eleitorais observado apenas os votos válidos.
A pesquisa do Datafolha publicada hoje mostra três novidades:
1. É a primeira vez, depois de 40 dias, que Serra sobe.
2. É o melhor desempenho obtido por Marina (14% dos votos válidos) desde que a campanha começou
3. Dilma oscilou para baixo e ficou próxima aos patamares obtidos no mês de agosto.



Caso a eleição fosse hoje, a vitória de Dilma no primeiro turno não estaria assegurada. Por três razões:
1. A oscilação estatística dos resultados. Infelizmente, as pesquisas por quota, feitas pelos institutos de pesquisa no Brasil, não nos permite calcular a incerteza dos resultados. Por isso, não falo de margem de erro nas postagens.
Mas a variação estatística é uma das premissas da pesquisa por amostra. Existe, mas não podemos dimensioná-la com a precisão de uma pesquisa probabilística.
2. A variação no comparecimento afeta os resultados. Neste ano, a abstenção deve cair, pois nas eleições presidenciais os eleitores poderão votar fora do seu domicílio eleitoral. Mas não sabemos previamente os efeitos desta nova regra.
Outro fator importante é a exigência de um documento com foto para votar. Também é impossível saber se este medida afastará alguns eleitores (sobretudo os mais pobres) das urnas.
3. O contingente de votos anulados por erro. O número de eleitores que declararam que vão votar em branco ou anular na pesquisa do Datafolha de hoje é de 4%. A menor taxa em uma disputa presidencial foi de 8%.
Não há como dimensionar quantos eleitores ainda erram na hora de votar.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Como votar para deputado

Coluna publicada no O Estado de São Paulo de Hoje:

Já recebi quase uma dezena de e-mails com seleções das cenas mais bizarras do horário eleitoral deste ano. O conjunto é quase sempre grotesco e desanimador. Antes tínhamos acesso às campanhas dos candidatos de nosso Estado. O YouTube ampliou enormemente nossas opções. Podemos assistir a performances de candidatos de mais 26 Estados.

Não dá para dimensionar os efeitos negativos destes vídeos sobre uma avaliação geral sobre a política e a atividade parlamentar. Nos resta apenas esperar mais uns dias para observar o perfil dos eleitos, e para sabermos se houve um aumento do números de votos em branco e nulos. Preocupante, por enquanto, somente a informação trazida pela pesquisa do Datafolha, feita em nove Estados, sobre a intenção de voto para deputado. A pouco menos de um mês para as eleições (a pesquisa foi feita nos dias 7 e 8 de setembro), apenas 1/3 dos eleitores já havia escolhido seu candidato.

Na semana passada, perguntei a um grupo de estudantes universitários se eles sabiam quais eram as regras para apuração dos votos para deputado. Quase todos responderam que os mais votados do Estado são os eleitos. Em um Estado como São Paulo, com uma bancada de 70 deputados na Câmara, os 70 mais votados seriam escolhidos. Eles ficaram surpresos quando disse que estavam errados.

Mas por que será que quase todas as pessoas imaginam que seja assim? Minha desconfiança é de que a lógica das eleições majoritárias para os cargos do Executivo acaba contaminando a visão dos eleitores. Se durante a campanha os deputados pedem votos para si como fazem os candidatos para presidente, governos de Estado e senador, e se no momento de votação, diante da urna eletrônica, os eleitores quase sempre votam em nomes e assistem a seus retratos aparecerem na tela, é natural que tenhamos a impressão que o sistema é semelhante: o candidato mais votado para governador fica com a vaga; os mais votados para o Legislativo são eleitos.

O que poucos eleitores sabem é que o sistema eleitoral utilizado nas eleições para Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa é o proporcional. Neste sistema o mais importante é saber quantos votos cada partido (ou coligação) recebeu.

Quando digita os números dos candidatos a deputado estadual e federal, os eleitores não imaginam a quantidade de detalhes que afetam o "destino de seu voto". Vejamos alguns deles.

1. Se você anula ou vota em branco, seu voto não tem nenhuma serventia na distribuição das cadeiras. A urna eletrônica traz um botão verde que permite ao eleitor votar em branco. O botão é uma herança do período (até 1996) que os votos em branco eram considerados para a distribuição das cadeiras. Para anular o voto é preciso digitar um número inexistente (tarefa difícil, com tantos partidos e candidatos). Apesar da diferença, os dois votos têm o mesmo destino: são ignorados para a distribuição das cadeiras.

2. Se você vota em um determinado candidato, este será somado ao de outros candidatos do mesmo partido (ou coligação). O voto para cargos do Executivo e para senador não é transferível. Vai para aquele nome e ponto. Nas eleições para deputado, um voto é agregado aos de outros nomes da lista (que pode ser um partido ou coligação).

Os eleitores, quase nunca, conhecem os detalhes das coligações eleitorais. Por isso o espanto quando foi divulgada a informação de que os votos do candidato Tiririca (o mais bizarro da temporada) será agregado aos votos do PT e do PCdoB. Não tem jeito: o mais doutrinário comunista será ajudado pelos votos do candidato abestado; e vice-versa.

3. Se você vota na legenda, seu voto é somado aos votos dos candidatos que pertencem àquela legenda. Caso o partido esteja coligado, entram na conta os votos dos candidatos e o voto de legenda de outros partidos.

Muitos eleitores acreditam que a melhor maneira de ajudar a um partido é votar na legenda. Se o partido estiver coligado, é a pior. No exemplo acima, pense no destino do voto dado na legenda do PT. Serviu para aumentar a bancada da coligação. Mas não ajudou particularmente ao PT.

4. Se o partido que você votou não atingir um mínimo de voto (o quociente eleitoral), ele não pode receber nenhuma cadeira.

O quociente eleitoral é o resultado da divisão dos votos válidos (dados em candidatos e legenda) dividido pelo número de cadeiras. Pelas minhas contas, o quociente eleitoral para deputado federal em São Paulo este ano deve ser de cerca de 300 mil votos.

Um partido que, por exemplo, obtenha 290 mil votos está fora da distribuição das cadeiras. Esses votos têm o mesmo destino dos anulados e deixados em branco: não servem para nada.

5. Você pode votar em um candidato que recebeu muitos votos e ele pode não se eleger; enquanto outro com muito menos votos é eleito.

O sistema procura distribuir as cadeiras proporcionalmente aos votos dos partidos (e coligações). Não garante que nomes que individualmente obtiveram muitos votos serão eleitos. Nem que nomes com poucos votos não possam entrar. O Prona, partido de Enéas, elegeu o deputado Vanderley Assis em São Paulo (2002) com 275 votos.

Exemplos extremos como o do deputado do Prona acabam confundindo ainda mais os eleitores. Como vimos, grande parte deles pensa que utilizamos um sistema majoritário na disputa para a Câmara dos Deputados.

Todos os anos o TSE apresenta durante a campanha peças publicitárias chamando a atenção para a responsabilidade da escolha nas eleições para deputado. São as campanhas pelo voto consciente. Talvez valesse a pena esclarecer os eleitores sobre o "destino" do voto. Como vimos, um aspecto está associado a outros. A campanha poderia ter a seguinte premissa: vote consciente para deputado, mas saiba para onde está indo o seu voto.

domingo, 19 de setembro de 2010

Das razões do voto para deputado

Fiz uma enquete no blog para avaliar as motivações do voto para deputado federal. Oitenta e oito pessoas votaram.
Em primeiro lugar apareceu o quesito voto pessoal (voto em um nome, independente do partido) com 31% das preferências. Em segundo, empatados com 25% cada um, o voto partidário (voto na legenda ou em um candidato do meu partido) e o voto ideológico (voto em um nome que pertença ao meu "campo" político). As outras opções somaram 16%.
Os visitantes do blog são interessados em política e com alto nível de escolaridade (suponho). Por isso, os dados desta enquete não são representativos. Mas dão algumas pistas para pensar a representação política no Brasil.
Sabemos que o voto territorial (voto em alguém que representa o lugar onde vivo) é forte no interior do país. Na pesquisa apenas um visitante o considerou importante. Da mesma forma, acredito que o voto de identidade (voto em alguém com mesmos atributos do que eu), que recebeu apenas 2 votos, seja expressivo entre o eleitorado.
Uma surpresa foi o reduzido número de eleitores partidários.
Com base em uma pesquisa amostral, feita em 2002 pelo IUPERJ/Vox Populli, estimei que o contingente de eleitores partidários estaria na faixa de 15% a 20%. Neste grupo estão as pessoas que têm preferência por um partido e declaram voto para legenda ou candidato daquele partido nas eleições para a Câmara dos Deputados.
Por isso, esperava que, entre os visitantes do blog, este número seria muito mais alto.
Sabemos que o sistema eleitoral de lista aberta, em vigor no país, permite a convivência de diversas estratégias de captação de votos. Mas ainda avançamos pouco na criação de "tipos" de estratégia utilizada pelos políticos nas suas campanhas.

Em tempo
A Folha de São Paulo de hoje traz dados sobre a intenção de voto para a Câmara dos Deputados em oito Unidades da Federação. A pesquisa foi feita nos dias 8 e 9 de setembro. O percentual do eleitorado que já sabe em quem vai votar para deputado federal é muito reduzido: varia entre 39%, em Pernambuco, e 29%, no Paraná.
Os deputados federais que tentam a reeleição passaram os quatro anos procurando prestar contas de suas atividades. Os candidatos que concorrem em cada estado estão há dois meses fazendo campanha de rua. O horário eleitoral apresenta os nomes dos federais três vezes por semana e em centenas de inserções ao longo do dia no rádio e televisão.
Tudo isso para somente 1/3 dos eleitores terem efeito a sua escolha.
O pior é que as pesquisas feitas daqui alguns meses mostrarão que boa parte dos eleitores já haverá esquecido da sua escolha.
Temos que pensar com mais calma a respeito dos mecanismos de controle eleitoral e de prestação de contas (accountability) deste sistema.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A queda dos homicídios no estado do Rio de Janeiro II

No mês passado, fiz uma postagem onde apresentei dados sobre a queda da taxa de homicídios no Estado do Rio de Janeiro. Sem querer, apaguei a postagem original.
Como o tema reapareceu no debate (Rede TV/Folha de São Paulo) entre os candidatos a governador ontem à noite, resolvi atualizar os dados.
Os dois gráficos abaixo apresentam os números sobre a evolução da taxa de homicídios no estado do Rio de Janeiro. Para permitir a comparação entre os governos, apresento apenas os dados para o primeiro semestre de cada ano.
O primeiro semestre deste ano teve a menor taxa de homicídios desde que as estatísticas da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro apresenta os dados.
Não sou especialista no tema, mas a queda parece estar associada ao programa de Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP) em doze comunidades da capital, antes dominadas pelo tráfico. A crítica da oposição é que os membros das quadrilhas das comunidades ocupadas estariam se deslocando para outras áreas do estado. A análise da distribuição geográfica da violência no estado podem dimensionar se esta hipótese se sustenta.



De qualquer modo, a redução dos homicídios no primeiro semestre de 2010 é impressionante. Veja o gráfico abaixo, com dados por mês. O mês de Junho de 2010 teve a menor taxa de homicídios desde Janeiro de 1991; mesmo quando analisamos os meses do segundo semestre, não cobertos pelos gráficos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Lula é o Plano Real de Dilma

Artigo Publicado no Estado de São Paulo de hoje:

O jornal O Globo em sua edição do ultimo domingo, deu espaço para que 15 escritores, empresários e jornalistas escrevessem pequenos textos sobre o “vazio de ideias e ausência de reflexão” nas eleições deste ano.
Será que a campanha atual é tão diferente das anteriores? Falta mesmo reflexão?
Tenho uma avaliação diferente da feita pelos 15 analistas. Não acho que seja a ausência de ideias a principal razão para que a campanha esteja produzindo desinteresse - e em alguns setores, um certo enfado- pela disputa presidencial neste ano.
A questão central é que a disputa perdeu a competitividade. No pleito presidencial - e em estados importantes para governador - um candidato abriu uma distancia enorme em relação ao seus competidores. E disputas assim, afetam o interesse do eleitor.
Desculpem a metáfora futebolística. Mas campeonatos em que um time abre uma vantagem muito acentuada em relação aos seus adversários tendem a levar muito menos público aos estádios e mobilizar pouco os torcedores.
Quem acompanha política imaginava que este ano teríamos uma disputa acirrada entre os dois principais candidatos, Serra e Dilma. Os analistas desenhavam uma subida lenta de Dilma, com alta probabilidade da disputa ser resolvida em um segundo turno.
O crescimento avassalador de Dilma surpreendeu a todos. Quem imaginaria que a candidata petista estaria à frente nas pesquisas em todos os estados da Federação? A campanha de José Serra não se preparou para isso. Afinal, o ex-governador de São Paulo liderou as pesquisas por mais de um ano, e sua adversária era uma ministra nunca testada nas urnas.
A disputa de 2010 lembra o que aconteceu em 1994. Lula liderava as pesquisas desde o começo do ano anterior. Em maio de 1994, Lula aparecia com mais de 50% das intenções de voto para a presidência. A história é conhecida: o governo Itamar Franco lançou em 28 de Fevereiro um plano econômico de estabilização monetária. O ápice do programa de estabilização foi a criação de uma nova moeda, o Real, em 01 de Julho. O plano derrubou a inflação. Algumas semanas depois, o então ministro da fazenda, Fernando Henrique Cardoso ultrapassaria Lula. De maneira impressionante.
Os gráficos comparam a evolução da preferência de voto dos dois principais candidatos de 1994 (Fernando Henrique e Lula), com a evolução dos dois principais em 2010 (será e Dilma).
Observe que os dois candidatos que lideravam as pesquisas foram surpreendidos pelos seu adversários ao longo do mês de Julho. Estas foram as únicas duas vezes, nas cinco eleições presidenciais disputadas desde 1989, que um candidato que liderava a disputa nos primeiros meses do ano perdeu a disputa.



Confesso que não me lembro que alguém tivesse reclamado de “vazio de idéias e ausência de reflexão” na disputa de 1994. Daquela disputa , ainda lembro da aulas de Brizola na televisão, explicando num quadro como o Real era prejudicial à população. Lembro da dificuldade do PT encaixar um discurso de campanha; do Dominguinhos cantando o excelente jingle de Fernando Henrique; e do escândalo da parabólica, que deu dias de munição à campanha petista.
2010 é 1994 pelo avesso. Uma diferença notável é jingle de campanha da Dilma. Certamente um dos mais sem graça da história eleitoral brasileira.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dois sites que merecem uma visita

Não tenho como avaliar os efeitos da Internet sobre a campanha eleitoral deste ano. Minha impressão é que ela foi muito menos utilizada pelos candidatos do que se imaginava.
Mas pelo menos tivemos a oportunidade de conhecer instrumentos excelentes de difusão de informação: blogs, sites interativos, novos instrumentos para visualização de dados.

Veja dois bons exemplos:

Teste as afinidades entre as suas opiniões e os candidatos presidenciais
Imagino que a esta altura, a maioria das pessoas que passam por aqui já tenha feito sua escolha para presidente. Mas vale uma visita ao site Meu Voto 2010 criado pelos cientistas políticos Fernando Mendez e Cesar Zucco.
A ideia é boa. responda algumas perguntas e, ao final, o site indicará qual dos candidatos tem mais afinidade com as suas ideias. As perguntas são boas. Algumas delas trata de temas doutrinários que estão longe do debate público brasileiro (discriminalização da maconha, aborto e homossexuais). E outras são temas presentes na agenda (quotas, bolsa-família e redução da jornada de trabalho).

No meu caso, não obtive a barra verde (que indica alta similaridade) para nenhum dos candidatos...

História da Cédula eleitoral no Brasil
O site da veja.com traz um resumo das principais mudanças no processo de votação no período desde o começo da república. O internauta "clica" e recebe informações sobre o processo de votação. Interessante, particularmente, é a ilustração das diversas cédulas utilizadas nas eleições.
Um bom material para trabalhar com jovens.
"De quebra", algumas frases do autor deste blog...

sábado, 11 de setembro de 2010

Quais são as razões do seu voto para Câmara dos Deputados?

Pesquisas em blog só tem uma utilidade: saber a opinião dos visitantes daquele blog.
No meu caso, poucos amigos que passam por aqui.
Lanço hoje a primeira enquete do Blog Eleições em Dados. O objetivo é identificar algumas das "motivações" do voto para a Câmara dos Deputados.
Existem poucas pesquisas sérias sobre os determinantes do voto para Câmara dos Deputados (na verdade para o Legislativo, em geral) no Brasil. O tema merece estudos mais cuidadosos da ciência política.
Por ora, podemos identificar as tendências dos visitantes do blog. O que é muito interessante.
Veja a enquete acima e vote.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A vantagem de Sérgio Cabral na cidade do Rio de Janeiro

Uma das razões da ampla vantagem do atual governador Sergio Cabral sobre o seu principal adversário, Fernando Gabeira, deve-se ao seu desempenho na capital. Segundo a última pesquisa IBOPE, Cabral teria na capital 58% dos votos. Gabeira estaria com 25%.
A distância é muito grande, sobretudo se observarmos as disputas anteriores. Nenhum dos governadores eleitos depois de 1982 teve uma vantagem tão ampla na capital.
Vale lembrar que no primeiro turno de 2006, Cabral obteve 29% dos votos na capital.
Não sabemos como estes votos se distribuem pelos bairros da capital, mas a distância é tão grande, que o governador pode vencer nas áreas mais prósperas da cidade.
O último governador eleito que venceu na Zona Sul e na na Zona Norte (Tijuca e adjacências) foi Marcelo Alencar em 1994.
Nos três mapas abaixo mostro o resultados das últimas disputas para governador na cidade do Rio de Janeiro.
Agreguei a cidade em oito macro-áreas: Zona Sul (que inclui a Barra da Tijuca); Zona Norte; Jacarepaguá, Central, Leopoldina, Irajá, Bangu e Campo Grande.
Os três mapas a seguir mostram a diferença em pontos percentuais entre os dois principais candidatos ao governo de estado nas eleições de 1998, 2002 e 2006. A intensidade das cores revela o grau de um candidato sobre o outro. Quanto mais vermelho, mais votos o governador eleito teve naquela área, quanto mais azul, mais votos seu adversário obteve.
No segundo turno de 1998, o governador eleito, Garotinho, teve muitas dificuldades na capital. O ex-prefeito Cesar Maia perdeu apenas em duas regiões (Bangu e Campo Grande). Em 2002 a disputa foi resolvida no primeiro turno. Rosinha, a governadora eleita, perdeu nas áreas mais ricas da cidade (Zona Sul e Tijuca) para sua adversária, Benedita da Silva. O mesmo padrão se repetiu em 2006, quando o governador Sergio Cabral perdeu nas duas áreas para sua adversária Denise Frossard.

Eleições de 1998 na cidade do Rio de Janeiro: Garotinho vs. Cesar Maia


Eleições de 2002 na cidade do Rio de Janeiro: Rosinha vs. Benedita


Eleições de 2006 na cidade do Rio de Janeiro: Cabral vs. Frossard

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

São Paulo e Dilma Rousseff

Coluna Publicada hoje no O Estado de São Paulo:

Muitos analistas acreditavam que a disputa presidencial deste ano, entre Dilma Rousseff e José Serra, reproduziria o padrão territorial das eleições de 2006. Naquele ano, no primeiro turno, Alckmin venceu nos três estados da Região Sul, em São Paulo e no Centro-Oeste. Lula venceu no Nordeste, no Norte e nos outros estados do Sudeste.
As pesquisas feitas até meados de agosto deste ano mostravam que, em linhas gerais, o padrão se mantinha. Dilma vencia por ampla margem no Nordeste e no Norte e mantinha a dianteira em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Serra vencia no Sul e em São Paulo. Esta distribuição de votos garantia uma posição de equilíbrio, com uma pequena vantagem pró-Dilma.
A larga vantagem que Dilma abriu nas pesquisas, a partir do mês de agosto, está associada ao fato de ela ter passado a vencer nos estados da Região Sul e em São Paulo. O que ninguém imaginava é que a candidata do PT teria uma vantagem tão ampla um mês antes das eleições. Na última pesquisado Datafolha (2 e 3 de setembro) Dilma obteve 44% das preferências e Serra 36%.
São Paulo tem sido um estado central nas eleições presidenciais por uma série de razões. Além da mais óbvia delas - a densidade econômica e populacional - , o estado tem as seções mais poderosas dos dois principais partidos que governaram o país na última década e meia, PSDB e PT. Em 1989, cinco candidatos tinham domicílio eleitoral no estado: Lula, Mário Covas, Paulo Maluf, Guilherme Afif e Ulisses Guimarães. As disputas seguintes foram entre Lula e algum nome da seção paulista do PSDB: Fernando Henrique, Serra e Alckmin.
Lula participou de oito disputas presidenciais. Só foi vitorioso em São Paulo no primeiro e no segundo turno em 2002, quando disputou contra José Serra. Nas outras seis vezes, venceram Collor (primeiro e segundo turno de 1989); Fernando Henrique (primeiro turno de 1994 e 1998) e Alckmin (primeiro e segundo turno de 2006).
Os resultados das cinco eleições presidências realizadas em São Paulo podem ser vistos no Gráfico. Observe a ampla vantagem de Lula sobre Serra em 2002, única ocasião em que o candidato petista venceu no primeiro turno em São Paulo.


Talvez por conta deste retrospecto, ninguém imaginaria a boa performance de Dilma no estado. Afinal, se Lula sempre teve dificuldades, o que poderíamos esperar de uma candidata do PT, que não fez carreira no estado? Sobretudo, porque ela é adversária de um nome forte da política paulista, que já foi prefeito da capital, governador do estado e candidato à presidência.
Precisamos mobilizar os estudiosos do comportamento eleitoral dos paulistas para responder a duas questões: Quais motivos fizeram Dilma crescer tão rápido em São Paulo? Por que um ex-governador de estado que saiu do governo com alta popularidade está perdendo em seu estado natal? Faltam muitos dias para as eleições. E muita coisa pode acontecer até lá. Mas o crescimento fulminante de Dilma em São Paulo é um fenômeno. Talvez um dos maiores deste ano.

domingo, 5 de setembro de 2010

Por que Aécio Neves não deverá ter 70% dos votos?

Encontrei um amigo que mora em Belo Horizonte. Eleitor entusiasmado de Aécio Neves assegurou-me que o candidato tucano ao Senado teria mais de 70% dos votos. Pelo menos é o que indicavam as pesquisas.
Aécio deve ter uma votação excepcional em Minas Gerais. Sete em cada 10 eleitores devem votar nele para o Senado. Mas ele não deve obter 70% dos votos.
A confusão sobre como interpretar o percentual de votos para o Senado nestas eleições está associada à forma que os institutos e jornais estão divulgando as pesquisas: eles somam os dois votos de modo que o total das preferências chegue aos 200%.
Vejamos a tabela apresentada pelo Datafolha para a disputa para o Senado em Minas Gerais. O gráfico abaixo foi feito com base nas informações da pesquisa Datafolha que foi a campo nos dias 31 de agosto e 01 de setembro. Os resultados somam 200%.

Percentual de Votos para o Senado em Minas Gerais - Datafolha


Como funciona o sistema eleitoral na disputa para o Senado? Os eleitores tem a possibilidade de votar em dois candidatos, em um candidato (quando se anula ou se vota em branco uma vez) e em nenhum candidato (quando se anula ou se vota em branco duas vezes). Todos esses votos são somados. Os dois candidatos com mais votos são eleitos.
Existem duas formas de apresentar as estatísticas oficiais: incluindo (ou não) os votos em branco e nulos. Em qualquer uma das duas, o percentual deve fechar em 100%.
Precisaria ter acesso ao banco de dados do Datafolha para refazer os dados da disputa para o Senado, de modo que os resultados fossem apresentados de maneira próxima da forma oficial. Refiz a distribuição de votos, eliminando os eleitores indecisos. Por aproximação, a mesma pesquisa do Datafolha deveria apresentar o seguinte resultado:

Percentual de Votos para o Senado - Nova Apresentação


Acho que os institutos de pesquisa e a imprensa deveriam adotar esta forma de divulgar os dados. De outro modo, terão enorme dificuldade para explicar, por exemplo, como Aécio que aparecia com 66% dos votos nas pesquisas chegou aos dia das eleições com 39%.
Aécio Neves deve ter muito voto em Minas Gerais. Para que meu amigo "aecista" vai uma sugestão: olhe para os votos absolutos. Aécio deve ter muito mais votos do que o mais votado para a presidência e para governador em Minas Gerais. O que não é pouco.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Dois Detalhes (não tão pequenos) da visualização de dados

Estou convencido de que a boa apresentação visual é um aspecto fundamental para quem lida com dados. Observo que frequentemente pesquisas excelentes ficaram prejudicadas porque seus autores comunicaram mal seus resultados: tabelas mal feitas; gráficos inapropriados para os tipos de dados selecionados, malabarismos que prejudicam a visualização.
Neste espírito, quero fazer dois comentários. Um sobre o gráfico publicado no O Estado de São Paulo, feito para ilustrar meu artigo. O outro sobre o uso de cores na apresntação gráfica.

Os marcadores nos gráficos que lidam com o tempo

O Gráfico feito pela equipe de arte do Estado de São Paulo está muito bom. Na verdade, eles deram uma solução melhor, do que a minha proposta inicial. Minha sugestão tinha sido comparar os dois gráficos na horizontal, um abaixo do outro. Eles colocaram ambos na vertical, gerando um resultado muito melhor.



Mas um detalhe acabou prejudicando a observação dos dados. Eles esqueceram de colocar a escala de tempo na linha.
Nosso sistema visual não consegue captar a linha do tempo sem marcações. Veja a diferença agora com o dia 01 de cada mês na linha.
Agora fica muito mais fácil observar a posição dos candidatos ao longo dos meses. Com um gráfico um pouco maior, poderíamos ter utilizado a escala das semanas.



O uso de cores

Recebi está interessante mensagem de Waldemar Celes, professor de ciência da computação da PUC-RJ. Ele comenta os mapas que fiz sobre a diferença de votos de Lula e seus adversários no Nordeste:

"Existe ainda uma questão mais delicada (e eu também não sei muito sobre o assunto, é mais para a gente
trocar idéias). O uso das cores azul e vermelho pode não ser justo (apesar de ser natural a associação destas
cores com os partidos). O vermelho é uma cor quente e o azul é fria. O vermelho puro gera luminância (intesidade
de luz) de 21% e o azul de apenas 7%. Se o fundo fosse de cor preta, com certeza estaríamos matando o azul.
Com o fundo branco talvez temos um equilíbrio: o azul dá mais contraste (com o branco) e o vermelho tem mais
luminância. De qualquer forma, um teste interessante seria colocar dois mapas lado a lado, usando a mesma cor
(verde, por exemplo, é uma boa escolha): uma mapa com os discos pró-lula e outro com anti-lula, no caso.
Mas concordo que pode ser mais difícil fazer uma análise comparativa sem sobreposição".

Depois de receber estes comentários, pesquisei e vi que existe uma enorme literatura sobre o tema. Para quem tem interesse, sugiro um bom livro sobre mapas, que tem um capítulo detalhado sobre uso de cores: Designing Better Maps: A Guide for GIS Users, de Cynthia A. Brewer